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13/08/2026

Falência do Banco Santos tem mais de 20 anos na Justiça

Banco teve controlador preso pela PF, obras de arte leiloadas. Síndico foi afastado pelo CNJ e juiz foi gravado em reunião com herdeiros. (Por Luiz Vassallo e Marcelo Godoy) - foto reprodução - 

Resumo
A falência do Banco Santos, em São Paulo, envolve disputas judiciais e leilões de obras de arte. O juiz Paulo Furtado sugeriu aos filhos do falecido controlador Edemar Cid Ferreira vender sua participação ao Banco Master. Edemar, investigado pela PF, foi condenado por crimes financeiros. Após sua morte, conflitos com o síndico Vânio Aguiar persistem. Em 2026, o CNJ afastou Vânio, mas manteve o juiz, exigindo explicações. A defesa da família de Edemar não comentou

Há mais de 20 anos no Judiciário de São Paulo, a falência do Banco Santos foi marcada pelo leilão milionário de obras de arte, prisões de seu controlador, Edemar Cid Ferreira, e duras disputas judiciais em torno de seu patrimônio.

Como revelou o Estadão, um áudio mostra o juiz de falências Paulo Furtado de Oliveira Filho, responsável pelo caso do Santos, sugerindo aos filhos de Edemar, falecido em 2024, a venda de sua participação no banco ao Master, de Daniel Vorcaro.

Procurados, os herdeiros de Edemar não se manifestaram. O juiz Paulo Furtado de Oliveira Filho afirmou que “não tem conhecimento da alegada gravação clandestina de conversa travada no gabinete oficial” de sua “Vara, no ano de 2024, nem, muito menos, de seu inteiro teor”.

“De todo modo, adianto-lhe que, no longo exercício jurisdicional da falência do Banco Santos S/A, como, aliás, em todos os processos em que tenho atuado, todas as minhas decisões sempre foram e estão submetidas a amplo controle recursal pelos tribunais competentes, que, de regra, as têm confirmado na inteireza, assim como sempre foi e continua garantido atendimento irrestrito e igualitário às partes e interessados”, disse.

Assim como o Master, Banco Santos foi alvo da PF
As histórias dos dois bancos têm semelhanças. Assim como Daniel Vorcaro, Edemar Cid Ferreira também foi investigado pela Polícia Federal.

O banqueiro chegou a ser preso duas vezes. Foi condenado pela Justiça Federal por formação de quadrilha, gestão fraudulenta, desvios, evasão de divisas e lavagem de dinheiro. A pena chegou a 21 anos de prisão.


Depois, foi solto e conseguiu a anulação da ação em que foi condenado e a absolvição em outro processo criminal. Após ter sua mansão de R$ 21 milhões leiloada, além de obras de arte, Edemar faleceu em janeiro de 2024, morando em um apartamento alugado no Morumbi.

Falência foi marcada por guerra judicial
Fundado na década de 1980, por Edemar Cid Ferreira, o Santos foi alvo de intervenção do Banco Central em 2004. À época, estimava-se que o rombo era de R$ 700 milhões. Correntistas entraram em desespero porque saques foram limitados a R$ 20 mil e o site do banco ficou fora do ar.

Chefe do Departamento de Supervisão do Banco Central, Vânio Aguiar foi nomeado interventor do Santos. Em 2005, foi nomeado pelo então presidente do BC, Henrique Meirelles, como liquidante do banco. Ele foi o autor do pedido de falência do banco.

As obras de Edemar e as acusações de fraudes
O pedido foi acolhido pela Justiça de São Paulo, que nomeou o próprio Vânio como síndico da massa falida do Banco Santos. O administrador tratou de fraudes cometidas no banco, como as operações com cédulas de produto rural para inflar a carteira de crédito do banco com a finalidade de maquiar seus balanços.

Vânio ainda apontou que algumas dessas operações de crédito foram feitas com pessoas jurídicas ligadas ao próprio Edemar no Brasil e no exterior. Uma dessas empresas, por exemplo, era a Montvalle Corporation, nas Ilhas Virgens Britânicas, atribuída por Vânio à família de Edemar. Ele conseguiu o bloqueio de recursos dessa offshore.

No processo, Vânio fez pedidos para confiscar e leiloar obras de arte e até dinheiro no exterior atribuído ao banqueiro. Em 2020, por exemplo, a Justiça de São Paulo arrecadou R$ 16,1 milhões com o leilão de obras de arte de Edemar. Entre os quadros, estava o famoso esboço do quadro “Operários”, de Tarsila do Amaral, arrematado por R$ 1,2 milhão. Posteriormente, a tela “Hannibal”, de Jean-Michel Basquiat, foi leiloada pela casa de leilões Sotheby’s, em Londres, por R$ 43,6 milhões.

Banqueiro abriu ofensiva contra síndico do banco
Edemar contraatacou. Acusou Vânio, por exemplo, de contratar amigos e parentes, incluindo a própria esposa, como advogada da massa falida. Em tom jocoso, seus advogados chegaram a afirmar à Justiça que Vânio dava contrato até para sua “teúda e manteúda”. Procurado, Vânio não se manifestou.

O administrador judicial já separou mais de R$ 30 milhões para receber como honorários pela condução da falência do Banco Santos. Uma de suas empresas também recebeu aluguéis pelo uso da sala comercial onde fica o endereço da massa falida.

Em 2015, quando estava há uma década como síndico do Santos, Vânio foi nomeado pelo juiz Paulo Furtado de Oliveira Filho também como síndico da falência do Cruzeiro do Sul, que tem R$ 7 bilhões em dívidas.

A nomeação foi polêmica porque havia uma relação entre os casos do Santos e do Cruzeiro do Sul. É que a massa falida do Banco Santos, administrada por Vânio, cobrava na Justiça R$ 300 milhões do Cruzeiro do Sul. O Tribunal de Justiça de São Paulo derrubou a nomeação após ela ser mantida por Paulo Furtado.

Após mais de 20 anos de falência, foram pagos mais de R$ 2,9 bilhões a credores do Banco Santos. Vânio queria fazer o leilão da carteira de créditos para buscar abater o valor restante de R$ 600 milhões a ser quitado. Após sofrer um dos tantos contra-ataques de Edemar, Vânio respondeu assim, no processo do caso:

“Depois de ver desbaratado seu esquema de ocultação de obras de arte no exterior, de arrecadação de seus bens em nome de offshores e de falsas doações por sua cônjuge de recursos vindos do além-mar, é fora do padrão razoável que o Falido queira pôr a culpa na administração da falência.”

Juiz tentou aproximação e sugeriu venda ao Master

Após a morte de Edemar, o conflito apenas escalou. Como mostrou o Estadão, o juiz chegou a se reunir com filhos do banqueiro e falou em fazer um “acordão” para que eles vendessem sua participação no Santos e cessassem ações de responsabilização contra eles.

Àquela altura, havia outros bancos e fundos interessados no Santos. O juiz sugeriu diversas vezes, na gravação, que o Banco Master, de Daniel Vorcaro, tinha uma boa proposta.

A conversa foi intermediada por um antigo administrador judicial de São Paulo, Fernando Borges, que é próximo do juiz e foi amigo de Edemar no passado.

Ele não tem procuração no processo de falência do Santos para advogar pelos filhos de Edemar. O próprio juiz afirmou que se buscava, naquela conversa, uma “aproximação”. Procurado pela reportagem, Borges não se manifestou.

CNJ afastou síndico e cobrou juiz
A conversa não surtiu efeito. Os familiares de Edemar não fecharam negócio com o Master e o clima com o juiz e o administrador judicial só piorou.

Em fevereiro de 2026, a defesa do espólio de Edemar, representado pelos filhos do falecido banqueiro, pediu ao Conselho Nacional de Justiça o afastamento do juiz Paulo Furtado e do síndico Vânio Aguiar da falência.

“A continuidade da condução do feito pelo mesmo magistrado, nas atuais circunstâncias, implica risco concreto e atual de consolidação de danos irreversíveis ou de difícil reparação ao patrimônio da Massa Falida, à segurança jurídica dos credores e à própria credibilidade institucional da jurisdição falimentar”, afirmaram os advogados.

O corregedor nacional de Justiça, Mauro Campbell, acolheu em parte o pedido. Determinou a suspensão da falência e o afastamento de Vânio Aguiar. No entanto, manteve o juiz Paulo Furtado e lhe cobrou explicações sobre o caso.

Procurada, a defesa da família de Edemar Cid Ferreira não se manifestou. (Fonte: Estadão)

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